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A paixão segundo eu mesma

Por Isadora Carvalho

Dia desses me senti a própria G.H. Sem todo aquele glamour da Clarice, é claro. Estava eu sentada nos fundos da minha casa, fumando um cigarro, olhando as estrelas e escutando Sharon Van Etten. Gosto muito de Seventeen. Sempre gostei de qualquer coisa dessas que remetem a tempos mais simples. Livros e filmes de Coming of Age. Músicas sobre adolescência. Síndrome de Peter Pan? Só pode ser. Mas G.H. não era adolescente. Pelo menos não era o que Clarice dava a entender. Enfim, estava eu ali, sentada no chão de concreto, quando surge uma barata. Nunca tive medo de barata. Aqui em casa, é pra mim que sobra o trabalho sujo. Lembro de uma vez, quando tinha uns cinco anos, que entrei debaixo da mesa da sala, com o chinelo em riste, procurando minha rival, enquanto esta, serena, escalava a perna da minha prima, um ano mais nova. Mas lá estava, fumando meu cigarro e olhando as estrelas quando a presença daquela criaturinha me chamou a atenção. Imediatamente me lembrei de G.H. E teria como não lembrar? Li G.H. porque um crush me indicou. Na época eu passava por uma fase conturbada, talvez estivesse com uns papos meio dark. Ele disse que eu o fazia lembrar da G.H. Fui ler o livro pra tirar a prova. Pois bem, existe alguém no mundo que não se identifique com G.H.? Ou com Clarice? Porra, a mulher é citada a rodo no Facebook, na maior parte das vezes em frases que nem são dela, devem ser da Bíblia, sei lá. Se bem que a comparação até que faz sentido. Se Igreja de Clarice Lispector houvesse, fiel seria eu. Que mulher incrível. E que bela maneira de divagar sobre a existência a partir de uma barata. Obrigada, crush. Pra alguma coisa de bom você serviu. Mas estava eu ouvindo Sharon Van Etten, fumando um cigarro e olhando a barata. Ela parou a poucos centímetros de mim. Não tive medo. Não esbocei reação alguma. Apenas me lembrei de G.H. Não, antes de qualquer coisa, não comi a barata. Como eu queria que minha vida fosse um filme, mas jamais teria a mesma coragem ou ousadia de G.H. Pela minha cabeça passavam as mais variadas ideias. Acho que vou escrever alguma crônica, sobre a Clarice numa roda de samba, cantando “E aí Clarice o que cê vai fazer? Vou comer a barata pra me defender”. Todos riam muito e ela virava mais um shot de rabo de galo. Imagino que seria lindo tomar uns rabos de galo com Clarice. Não saberia de início o que dizer, mas o álcool acabaria fazendo sua parte. E logo estaríamos abraçadas na sarjeta, cantando que “não era amor, era cilada”. Olhei pra barata. Ela permaneceu imóvel. A Sharon cantava. Eu lembrava de G.H.

Mas agora meu mundo é o da coisa que eu antes chamaria de feia ou monótona — e que já não me é feia nem monótona. Passei pelo roer a terra e pelo comer o chão, e passei por ter orgia nisso, e por sentir com horror moral que a terra roída por mim também sentia prazer. Minha orgia na verdade vinha de meu puritanismo: o prazer me ofendia, e da ofensa eu fazia prazer maior. No entanto este meu mundo de agora, eu antes o teria chamado de violento.

Com 17 anos, como Sharon cantava, o mundo me era feio e monótono. A culpa cristã me consumia. Mais tarde, percebi que sofria. E no sofrer sentia também prazer. São as dualidades da vida, que nunca vem em par, mas que são múltiplas. Quanto prazer, sofrimento e violência eu tinha sentido. E agora, ali, sentada no concreto duro, com a barata na minha frente e com a Sharon cantando sobre ter dezessete anos, eu percebia que nada importava. Que o mundo, o qual antes Clarice e eu mesma teríamos chamado de violento, não passava apenas do mundo, da existência, do passar dos dias. A barata não significava nada e ao mesmo tempo significava tudo. A sua presença e o meu desprezo diziam muito do quanto eu havia crescido dos meus dezessete anos até então. Do quanto o meu mundo de agora, não era mais violento, pelo contrário, de como eu havia aprendido a encontrar prazer no “roer a terra e comer o chão”, como tudo isso isso fazia parte da Vida, numa perspectiva maior.

E enquanto a barata estava ali, parada, e a Sharon cantava sobre seus dezessete anos e que poderiam ser os meus também, eu me imaginava uma espécie de G.H. pós bug do milênio. Talvez a barata tivesse que ser substituída por outra alegoria. Mas quem era eu pra discordar, enquanto ela estava ali, materializada, me encarando? Não, não comi a barata. Tampouco a matei. Não estava de chinelos. E nem a mataria se estivesse. Simplesmente continuei fumando meu cigarro, cantarolando Seventeen e a barata seguiu seu rumo. Talvez eu jamais encontre o meu.

Clipe de Seventeen da Sharon Van Etten

Texto originalmente publicado em: https://histegosaurus.medium.com/a-paix%C3%A3o-segundo-eu-mesma-3fc12388e0c9

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