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John & Yoko + Paul & Linda = ?

Por Vitor Nery

“Qual o seu Beatle favorito?”. Já ouvi essa pergunta batida umas diversas vezes na vida. Ora era John, ora Paul. Às vezes dizia George para soar diferente, mas nunca quis soar diferente o suficiente para responder Ringo. No fundo, ficava mesmo entre John e Paul. Sendo bem honesto, tive minhas idas e vindas com os Beatles, desde achar a banda a “mais incrível de todos os tempos” lá pelo fim da minha adolescência, até achar o clichê do clichê já com uns 20 e poucos anos. Hoje, já tendo passado da barreira dos 30, acho uma ótima banda e muito importante para a história do rock e da música pop como um todo. Porém, algo que sempre me fascinou foi essa aparente dualidade entre uma das maiores duplas de compositores já vista: Lennon–McCartney.

Ultimamente, tenho me pegado pensando bastante nas carreiras de ambos no período pós Beatles. Acredito que algumas pequenas coincidências estejam me levando a isso. Em 1971, Lennon lançou o clássico disco Imagine e McCartney, o então incompreendido Ram. Ambos os discos compostos em ambientes bucólicos e um tanto quanto rurais. Feitos por artistas que ainda se descobriam após o fim da banda. Compostos ao lado de suas companheiras: Yoko Ono Lennon e Linda McCartney. Também há um pouco de identificação pessoal: hoje tenho 31 anos, a mesma idade que John ao lançar seu álbum (Paul era um pouco mais novo, estava próximo de completar 29). Tenho me identificado com os temas que ambos trouxeram nessa fase pós-Beatles e vejo que, apesar de estarem com a amizade abalada à época, os dois discos conversam muito bem um com o outro.

John + Yoko = Imagine

Após o bem recebido álbum de estreia John Lennon/Plastic Ono Band (1971), o próximo passo para o músico de Liverpool seria ainda mais ambicioso. Inserido cada vez mais no ativismo político, sobretudo no pacifismo e influenciado pela poesia e textos de Yoko, John iria compôr seu mais prestigiado disco solo. George Harrison, amigo e antigo companheiro de Beatles, seria recrutado para o álbum além de um time de grandes músicos como o consagrado baixista Klaus Voorman e o produtor Phil Spector. John e família se isolaram em sua casa em Tittenhurst Park, um pouco mais afastada e tranquila. Lá o músico se viu rodeado por amigos, natureza, seu filho e da companheira. Além disso estava longe de toda a confusão e cobrança após o término dos Fab Four, dos assédios e inquisições da imprensa britânica.

Jealous Guy, música do álbum imagine de 1971, aqui em uma versão remixada em 2020

No documentário John & Yoko: Above Us Only Sky (2018) podemos ver imagens de um John aparentemente feliz, fazendo piadas e empolgado com o novo trabalho. O ambiente da casa era muito acolhedor e toda essa atmosfera lhe fazia bem. John também estava mais convicto sobre quais os temas lhe eram de fato importantes e os que não lhe apeteciam mais. Temas como misticismo e transas astrais haviam dado lugar ao pedido pelo fim da Guerra do Vietnã, falar de seu amor pela esposa e da possibilidade de imaginar um mundo melhor e mais justo na faixa-título.

Imagine é antes de tudo um trabalho de John e Yoko. Ela foi a grande influência nas letras e nos temas abordados. A própria ideia de um exercício imaginativo já era proposto por Yoko em diversos de seus trabalhos, sobretudo nos poemas publicados em seu livro Grapefruit (1964). John viria a declarar em uma entrevista em 1980 que deveria ter dado mais crédito a esposa pelo disco e culpou sua própria imaturidade por isso. Recentemente a história tem feito jus a imagem da artista que durante muito tempo foi demonizada como a “responsável pelo fim dos Beatles”. Assistindo a entrevistas e lendo sobre a época podemos ver uma mulher sensível, criativa e que potencializou o trabalho do marido enquanto enfrentava todo tipo de ataque. Yoko Ono Lennon conviveu ao longo de anos com incompreensão, xenofobia, racismo e a mais pura inveja.

Yoko e John em 1971 – Foto por Michael Putland

O disco, lançado em setembro de 1971, seria premiado e ficaria em primeiro lugar nos EUA e no Reino Unido, sendo considerado o maior sucesso da carreira solo de Lennon. A canção Imagine seria a mais importante do artista e entraria para o imaginário coletivo com o piano branco tocado no vídeo promocional. Jealous Guy é uma confissão aberta dos ciúmes e inseguranças sentidos pelo músico. Crippled Inside e It’s So Hard resgatam o rock dos anos 1950 e comecinho dos anos 1960. O hino antibélico I Don’t Wanna Be a Soldier é seguido pela cápsula do tempo Gimme Some Truth: poderoso retrato de um assustador 1971, expondo a hipocrisia do Establishment e apontando o dedo diretamente para Richard Nixon.

Teríamos também belas canções românticas no agradável fechamento do disco em Oh Yoko!, além da minha faixa preferida do disco, a parceria com George em Oh My Love. A guitarra limpa de Harrison e a voz serena de John batem fundo e soam quase como algo onírico. É reconfortante ver esse lado mais contemplativo e sossegado do artista. Ainda haveria espaço para atacar Paul McCartney em How Do You Sleep?, motivada pelas rusgas do passado e os ataques feitos por Maca na abertura de Ram: Too Many People.

Paul + Linda = Ram

Meses antes, em maio de 1971, Paul e Linda McCartney lançariam Ram. Em seu lançamento, o disco foi execrado pela crítica e até mesmo pelos outros ex-Beatles. Hoje é considerado o primeiro trabalho do que viria a ser tido nas décadas seguintes como indie pop e um dos melhores discos de McCartney. Ele vinha passando por maus bocados desde o fim do Quarteto de Liverpool, entrado em depressão, afundado no alcoolismo e seu primeiro disco (McCartney, 1970) não fora bem recebido. McCartney é um “disco de um homem só”, produzido e tocado unicamente por Paul com exceção de alguns vocais de Linda. Foi justamente com Linda que Paul decidiu realizar Ram.

Clipe oficial da música Heart Of The Country, primeira do Lado B do disco

Maca era provavelmente o ex-Beatle mais odiado na época: fosse pelos colegas (especialmente John), pela imprensa que havia considerado seu debute como o mais fraco dos outros trabalhos solos pós-Beatles ou pelos fãs que o culpavam – erroneamente – pelo fim da banda. Confesso que por muito tempo eu mesmo achei Paul o Beatle mais chato. Essa impressão não veio do nada já que foi cultivada durante anos por reportagens e lendas da cultura pop.

Paul exercia um papel de líder da banda nos últimos álbuns, sendo tido como o mentor intelectual do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e era famoso por seu preciosismo sonoro e pela atenção a detalhes estéticos como capas de álbuns, figurinos e até mesmo poses para fotos ou ao performar para o público. Isso somado a cara de bom moço, a fama de “certinho”, paquerador e outras coias contribuíram com a fama de Beatle chato que Paul levaria por muito tempo. Curiosamente, traçava-se sempre um contraponto com o jeito mais rebelde e diferente de John, desde os primeiros dias da banda, passando pelos seus últimos trabalhos e chegando até mesmo às fases solo.

Linda e Paul no Grammy Awards em 1971

O fato é que o início dos anos 1970 foram muito difíceis para Paul que então decidiu se isolar um pouco. Ele e Linda foram com os filhos para uma fazenda na Escócia e residiram por lá um certo tempo. O artista fala que o período foi fundamental para se distanciar de todo o ruído após o término do grupo e encontrar um pouco de paz. Pôde relaxar, entrar em contato com a natureza, sua família e consigo mesmo. McCartney estava feliz novamente e podemos perceber isso nas canções.

Linda não era musicista e ficou surpresa com a vontade do marido em compôr com ela. A fotógrafa teria dito ao marido que ele era Paul McCartney, afinal de contas. Poderia trabalhar com quem quisesse, qualquer músico estaria louco para colaborar com ele. Porém, Paul respondera que Linda era justamente a pessoa que ele precisava ao seu lado naquele momento e preferia ensinar tudo que fosse preciso a ela do que trabalhar com outra pessoa. Outros músicos colaboraram com o casal eventualmente mas o disco ainda é creditado como um trabalho de Paul e Linda McCartney.

Clipe do primeiro single do disco, Uncle Albert / Admiral Halsey

Ram é um retrato do ambiente pastoral que cercava os McCartney. Existe inclusive uma expressão em inglês que teria impactado Paul, “ram on”. Ram significa carneiro e “ram on” possui a ideia de seguir em frente como o próprio animal. O álbum é uma obra sobre seguir em frente e fala da descoberta da vida familiar.

O pop star agora falava do prazer de uma refeição em casa ao lado da companheira (Eat At Home) e dos benefícios de morar no campo (Heart Of The Country). Compunha seu genial baroque pop na belíssima Uncle Albert / Admiral Halsey, reminiscente da beleza de uma Eleanor Rigby, Yesterday ou She’s Leaving Home. A canção Ram On nos mostra seu lado intimista, tocando um ukulele no que soa como um dos maiores estágios de serenidade já captados em uma música. Vemos também seu lado roqueiro e vocais mais agudos, rasgados até, nas gostosas Smile Away e Monkberry Moon Delight. Maca declama seu amor por Linda em Long Haired Lady e terminamos o disco com a pérola pop embalada por um piano tipicamente mcCartneyano que é The Back Seat Of My Car. Algumas reedições do disco trariam ainda outras canções como Another Day, bonita música que viria a ser um hit global.

Claro, temos a citada Too Many People. Nela, Paul traça ataques diretos as “pregações” e “ativismos” de John, os quais via como certa hipocrisia. Havia muita gente bradando aos ventos fórmulas prontas sobre paz mundial, fim das mazelas do mundo e caminhos espirituais. McCartney não gostou de ver o amigo soar como mais uma dessas pessoas, havia ainda um certo ressentimento pelo fim da banda e a culpa que lhe foi atribuída. Futuramente, saberíamos de toda a história, hoje já tão esmiuçada em detalhes. Foi John quem resolveu deixar os Beatles. Paul e os demais decidiram que apenas com 3 integrantes o grupo não faria mais sentido (tema abordado na canção 3 Legs de Ram:). Se isso justifica o ataque nessa espécie de diss track? Não sei. Sei que John teve seu “direito de resposta” meses depois em How Do You Sleep?. Felizmente, no futuro os dois se reaproximariam dando fim as desavenças.

Faixa de abertura do RAM e de alfinetadas em John e Yoko

John & Yoko + Paul & Linda = Maturidade

Embora tenham sido realizados no momento em que a dupla Lennon–McCartney esteve mais afastada do que nunca, os álbuns Imagine e Ram conversam bastante entre si. Seja nos ataques explícitos que um fez ao outro, seja nos temas em comum como a felicidade encontrada no campo, a gratidão pela família e amigos ou pelo amor verdadeiro e maduro que viviam. E maturidade talvez seja a grande palavra aqui. Não apenas a maturidade sonora dos artistas mas também a dos temas abordados. A maturidade pessoal que cada um vivia à sua maneira. Dois homens, dois amigos que agora tentavam descobrir o que fazer quando já não eram mais garotos de Liverpool. Agora eram adultos e estavam começando a entender essa nova etapa da vida. Vinha uma calmaria, uma vontade de brincar com as referências da adolescência como o rock de Buddy Holly ou Chuck Berry. Tinham a possibilidade de que suas músicas soassem como eles quisessem e dissessem somente o que pensavam e sentiam.

Após o sucesso avassalador de Imagine, John e Yoko mudaram-se para New York. Yoko não gostava de viver no campo e tinha saudades da vida nos Estados Unidos. John se adaptou bastante ao país, continuou trabalhando e lançando ótimas obras. Ram foi duramente criticado mas ajudou Paul a passar por um momento complicado. Ele e Linda fundariam em seguida a banda Wings que levaria o casal novamente a ser sucesso de público e crítica, lotando estádios e vendendo muitos discos.

Hoje, vejo esses dois álbuns como retratos honestos de duas grandes lendas da música e sou grato por poder revisitá-los de vez em quando. Para não ficar em cima do muro aqui vai: prefiro Ram ao Imagine. Meu Beatle favorito? Paul McCartney.

OBS. Se puderem vejam o documentário John & Yoko: Above Us Only Sky atualmente disponível na Netflix.

Playlist com músicas dos dois álbuns citados e outros sons relacionados ao texto:

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