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Courtney Barnett, Bob Dylan e Bill Murray entram em um bar…

Por Isadora Carvalho

Já me aconteceu mais de uma vez. A maior parte não foi de propósito, mas algumas foram. Sabe quando você tá no meio de alguma conversa e o cérebro parece voar pra longe?

Adoro as cenas de filme onde isso acontece — normalmente, um foco no personagem, sons e imagens embaralhados ao fundo e por aí vai. Mas na vida real a gente não consegue se valer desses recursos cinematográficos, então inventamos técnicas para driblar uma conversa tediosa, por exemplo. Quando me vejo presa nessa situação, costumo mentalizar uma música de elevador, olhar dentro dos olhos da pessoa que tá falando e acenar afirmativamente com uma frequência razoável. Não é maldade. É apenas um mecanismo de sobrevivência na vida em sociedade. Pelo menos é isso que eu digo pra mim mesma.

Outras vezes acontece naturalmente. Pode ser em frente à televisão ou numa mesa de cozinha. As pessoas estão conversando e, sem perceber, você começa a se interessar muito mais pela xícara rodando na toalha. Sua mente está em qualquer lugar, menos ali onde seu corpo está. Não foi à toa que inventaram a expressão “no mundo da lua”. A princípio pode parecer que você não está pensando em nada, mas será que pensar em nada é possível?

Budistas e praticantes de meditação diriam que sim. Aposto que a Courtney Barnett também. O título de seu álbum de estreia é “Sometimes I sit and think and sometimes I just sit” e as músicas são boas tanto pra prestar atenção quanto para deixar tocando enquanto você se concentra em outra coisa. Algumas das letras são tão compridas que em alguns trechos parece mais que Courtney está declamando do que cantando.

capa do disco sometimes i sit and think, and sometimes i just sit

Acho que logo da primeira vez que escutei o álbum, lembrei de Bob Dylan. Pra mim, os dois conseguem transformar grandes questões internas em música de um jeito bem bonito. E a música, como representação cultural, nos faz refletir. E refletir às vezes cansa. Não sei se o cérebro acaba desligando apenas quando estamos cansados, mas sei que o título do disco da Courtney Barnett e a semelhança com Bob Dylan, por sua vez, me lembraram de um filme bobo que assisti com o Bill Murray.

Em St. Vincent, o personagem de Murray é um veterano da Guerra do Vietnã, viúvo e ranzinza que de repente se vê cuidando do filho da vizinha. Como em todo filme bobo, é claro que acaba surgindo uma amizade meio esquisita entre os dois. Não vou me estender no enredo, mas Vincent com certeza me pareceu uma pessoa que cansou de pensar. E, na minha opinião, a cena final, enquanto os créditos sobem a tela, é o resumo perfeito dessas situações em que mente e corpo não estão no mesmo lugar.

Créditos do filme St. Vincent com Bill Murray sentado em frente sua casa

Bill Murray, sentado em uma cadeira de praia, molhando plantas de um jardim que já deve ter visto dias melhores, enquanto canta Shelter from the storm e equilibra desajeitadamente um cigarro na boca. E é só. Por alguns minutos vemos o personagem fazendo isso. Cantando, fumando, molhando plantas.

E, ainda assim, não deixa de ser um momento poderoso do filme. De modo que, quem é que poderia dizer o que se passa na cabeça de alguém, mesmo que aparentemente essa pessoa esteja apenas sentada, “passando o tempo”? Quem é que poderia afirmar que em momentos como esse, em que o corpo está intacto, a mente não está longe, em meio à sua própria tempestade?

Isadora também escreve em seu medium, onde originalmente esse texto foi postado. Leia mais textos dela aqui: https://histegosaurus.medium.com/

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