comentário 0

Yo La Tengo: como me descobri na banda favorita dos críticos

Por Vitor Nery

Dos meus 18 aos 21 vivi a minha fase mais barulhenta, por assim dizer. Na época, eu escutava bastante noise e coisas da cena alternativa americana do fim dos anos 1980 e início dos 1990. Foi uma época em que me conectei muito com a guitarra distorcida, comecei a entender e discernir os sons ruidosos dos pedais, queria ouvir estática de televisão em alto volume num fone de ouvido. Ouvia muita coisa dessa época mas sobretudo Sonic Youth, Pixies e Dinosaur Jr. Acho que essa provavelmente seria a minha “santíssima trindade” naquele momento. Foi por causa dela que cheguei a bandas como Pavement, Sebadoh, Superchunk e, inevitavelmente, Yo La Tengo.

Acho que descobri o Yo La Tengo lá por 2010 ou 2011, quando eu tinha entre 20 e 21 anos. Eu estava me reconectando com músicas mais “limpas” e menos carregadas na distorção, pode-se dizer que me afastando um pouco da Fender Jazzmaster. O grande responsável por isso deve ter sido o Yo La Tengo. Eles faziam um som que podia ser chamado de noise porém muito mais melódico do que o das outras bandas que eu costumava ouvir. Não que elas não fossem melódicas em certa medida, mas aquilo era diferente. Vocais, melodias, o próprio uso de pedais era algo um pouquinho diferente.

E esse foi só o meu contato inicial com a banda, ainda escutando seus trabalhos iniciais. Ouvia muito os discos Painful (1993), President Yo La Tengo (1989) e Electr-o-pura (1995) nessa época. Era menos agressivo que as porradas do J Mascis ou do Lee Ranaldo na guitarra, mas não muito menos. E se eu já gostava do lado melódico (mas não assumia nem pra mim mesmo) da santíssima trindade, aqui eu o obtive em quantidades maiores. Nesses discos pude apreciar canções como Pablo and Andrea, The Whole of the Law e Alyda. Tudo isso enquanto desfrutava de músicas mais ruidosas como From a Motel 6 e Blue Line Swinger.

Pablo and Andrea do disco Electr-o-pura (1995)

Esse “noise melódico” da banda me ganhou e foi minha porta de entrada ao seu mundo. Com o passar do tempo percebi que falar “seu mundo” não seria eufemismo algum. O noise era apenas uma de suas facetas, o trio de New Jersey já havia explorado diversos tipos de sonoridades em sua vasta carreira.

Formada em 1984 pelo casal Ira Kaplan (guitarra e vocal) e Georgia Hubley (bateria e vocal), a banda teve alguns membros até se firmar como um trio após a entrada do baixista James McNew em 1992. Curiosamente, a entrada de McNew ocorreu após o lançamento do disco Fakebook (1990) no qual Ira e Georgia se viram sem um baixista e decidiram gravar um disco todo acústico com versões folk de velhas cansões do grupo, covers e novas composições. Fakebook soa completamente diferente de President Yo La Tengo (1989) e é um grande álbum, assim como seu antecessor. Essa alternância de estilos e abordagens feita com segurança marcaria a jornada da banda.

Yo La Tengo tocando Cat Stevens

Após se firmarem como um trio, viriam May I Sing With Me (1992), Painful (1993), Electr-o-pura e I Can Hear the Heart Beating as One (1997). Esse último é considerado por muitos fãs o melhor disco da banda, inclusive por este que aqui vos escreve. Estava tudo lá, tudo. Na pegajosa Sugarcube, o noise pop no melhor estilo do Superchunk. O noise mais contemplativo, frito e melódico em We’re an American Band ou em Deeper into Movies. Rock, puro e simples em Little Honda, uma canção simplesmente sobre uma moto. A calma e completamente limpa One PM Again, na qual podemos ouvir a voz de Ira Kaplan quase sussurrada. Uma deliciosa bossa-nova cantada por Georgia em Center of Gravity. A instrumental e delicada Green Arrow. Temos, claro, talvez a música mais conhecida da banda (pelo menos a mais popular do Spotify) Autumn Sweater, um indie pop gostoso e agradável, marcado pelo uso de base eletrônica e ausência de guitarra. O disco é um verdadeiro passeio criativo por tudo que o grupo poderia e queria ser, fosse em forma de despretensiosa brincadeira musical ou de verdadeiras pérolas para se revisitar de novo e de novo.

A bossa nova de Center of Gravity

Em 2000 a banda deu a guinada mais brusca de sua história, lançando o intimista And Then Nothing Turned Itself Inside-Out. O disco é extremamente calmo, suave mesmo, composto por obras mais lentas e atmosféricas. Também foi um trabalho de grande experimentação sonora, marcado pelo uso de sons eletrônicos como em Let’s Save Tony Orlando’s House ou Saturday. Também é evidente a ausência do uso da guitarra distorcida, presente apenas na gostosa Cherry Chapstick que mais parece saída dos anos 1990. Há muitas músicas marcadas por um tom minimalista e quase onírico como The Crying of the Lot G, Tears Are in Your Eyes ou a belíssima Our Way to Fall, que soam como uma mistura de standards de jazz dos anos 1940 e canções pop dos anos 1970.

Da esquerda para direita: James McNew, Ira Kaplan e Georgia Hubley

Confesso que meu primeiro contato com o esse disco foi de indiferença e certo estranhamento. Curiosamente com o passar dos anos, de minhas aventuras sonoras e das descobertas por outros sons de indie pop, o disco foi ganhando um lugarzinho no peito. Lugarzinho que hoje é de total destaque, brigando até mesmo com I Can Hear the Heart Beating as One. Fui mudando ao longo  dos anos minha relação com a guitarra, o rock e sua fúria. Reconectei-me com os “valores musicais” aprendidos na infância: a importância de um bom refrão e uma melodia que faz carinho na gente. Os ouvidos foram gostando mais e mais de outros instrumentos como o violão, baixo, piano, saxofone, xilofone, trompete e diversos outros. Caminhei pelo indie pop, folk, rock clássico e por aí vai. Sabe o que é interessante? O Yo La Tengo sempre pôde me acompanhar por essas andanças sonoras. Acho que também veio chegando a calmaria da vida, acredito que no momento em que And Then Nothing Turned Itself Inside-Out deixou de soar estranho e passou a ser, cada vez mais, familiar.

Our way to fall in love

Com os anos vieram mais discos da banda pela lendária gravadora Matador Records, como ótimo Popular Songs e o gostoso Fade de 2013. Este último emprestou a agradável balada folk I’ll Be Around para o premiado filme Boyhood (2014), dirigido por Richard Linklater. O prestígio entre críticos cresceu e se consolidou, já tendo sido apontada como uma das bandas favoritas do respeitado jornalista musical Robert Christgau e chamada de “a banda quintessencial dos críticos”. Esses são alguns dos indicativos de quão bem-sucedidos foram ao se reinventar e experimentar ao longo da sua trajetória.

Penso que por isso tenho uma relação de carinho com o Yo La Tengo. Não apenas por toda a qualidade da banda mas porque ela esteve comigo quando fui deixando os raivosos pedais e vocais distorcidos pra trás. Também esteve e está ao meu lado quando volta e meia retorno a eles. É uma banda que serviu como um mapa para que eu pudesse explorar sons, estéticas e facetas minhas e da música pop. E essa exploração tem sido muito prazerosa.

OBS: Em 2010 morei em São Paulo e lá fui a um festival chamado SWU, cheguei nos minutos finais de um show do Yo La Tengo que timidamente fazia seu som no terceiro ou quarto palco do evento. Ninguém estava dando bola, eu quase não dei bola. Ainda bem que foi apenas quase.

Aqui vai uma playlist feita pra quem ficou com vontade de explorar mais o universo Yo La Tengo:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s