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Uma alucinação e três sonhos de uma noite de verão¹

Por Natan Schäfer

“é verdade esse bilhete”: o que se segue é a anotação protocolar dos sonhos de uma noite de verão, realizada pela manhã, logo após o despertar do sonhador. Esta anotação consta num dos vários cadernos de sonhos de Natan Schäfer, como muitos, um sonhador. Porém, que por razões igualmente várias, adquiriu o hábito — por ora, cá e enquanto, não discutiremos se mau ou bom — de transcrever seus sonhos; hábito este mantido ora a macias, ora a duras penas durante alguns anos e cadernos.

A única supressão e edição realizada no texto que apresentamos diz respeito a um dos sonhos que compôs o quarteto onírico daquela fatídica noite repleta de mosquitos, sonho este cuja omissão é indicada por […]. Para além disso, o que apresentamos aqui é íntegro — contando com uma alucinação de bônus-track — e transcreve inclusive as hesitações e rasuras da anotação original, com as hesitações e vícios de linguagem de quem ainda está nos umbrais do sono, com o amarfanhado do travesseiro impresso no rosto e fiapos das sombras do inconsciente entre os dentes, dedos e dendritos.

Perguntado sobre o objetivo desta algo inusitada empreitada e, mais estapafúrdia ainda, da publicação da mesma, o sonhautor — como fez questão de ser chamado — se fez de bobo e sugeriu a leitura dos volumes que serão lançados na coleção As frutas das samambaias, série da Contravento Editorial dedicada exclusivamente aos sonhos noturnos e seus arredores. “E tem esse site”, complementou, totalmente em vão, uma vez que não contribuiu em nada para o esclarecimento da questão e, como se não bastasse, lançou dúvidas sobre o uso do verbo complementar.2

Ibirama – SC (BR)

Janeiro de 2021

O polic herói Erkenntnisse3 ou Herkunft4 é derrotado por um outro que simboliza a intuição.


1 N. do sonhador: os sonhos aqui relatados ocorreram todos na mesma noite. Cada parágrafo indica uma unidade onírica diferente. As inserções entre colchetes dizem respeito a comentários realizados a posteriori. A indicação […] diz respeito a um sonho tido nessa mesma noite, porém não publicado neste conjunto.

2 N. do s.: esta introdução foi escrita pelo próprio sonhautor, i.e. Natan Schäfer; porém, em condição de autor e fazendo de conta que ele não era ele. A presente nota foi redigida da mesma maneira, aliás. Ao finalizar a redação da mesma, o autor questionou-se sobre sua existência, assim como sobre as implicações teóricas desse tipo de assunção e sobre o significado da palavra “assunção” que, dentre outras coisas, dá nome à capital do Paraguai.

3 N. do s.: conhecimentos, em alemão.

4 N. do s.: origem, em alemão.


Estou numa cidade medieval, acho que Praga [CZ]. Acho que desço de um restaurante e tenho de puxar um grande carrinho de madeira cheio de esterco. Levo até uma rampa na beira de um rio que parece o Spree5. Ando de ferry-boat. Na beira de uma rodovia (BR?), Bolsonaro. Ele abana e faz joaia joia para os qu que passam. Alguém comenta que sua aprovação está em 17%. Pergunto se isto é alto ou baixo. Depois estou numa sala de aula (semelhante a onde estudei alemão com uma [professora] carioca na [rua] João Gualberto6), numa aula de política (para ser político). J. por ali, acho que E. também7.

[…]

Um programa de auditório com Foster Wallace, Caetano (Galindo)8 e outros convidados. O programa é após a morte de Foster Wallace, mas ele está lá, bem ativo, fazendo várias piadas e rindo bastante. Apresentam o CD da banda dele. A banda do programa é composta por Marcelo Madureira e Reinaldo — e talvez Hubert9. A capa do CD parece mostrar na perspectiva [sic] os macacos do Brueghel10 [,] uns restos, um cu, botões, agulhas. Som meio grunge e pesado. Uma background singer (?) do programa, meio velha e de cabelo branco cacheado diz que tirou todas as mlII músicas e que ele se acha demais (rindo). Ela canta uma. Começa com a pronúncia do inglês meio ruim. Soa algo meio Captain Beefheart. Flashes da participação dele [Foster Wallace] no programa nos anos 1990. Alguém explica que o atual é uma montagem com pedaços gravados então, quando ele estava vivo. Dá pra ver que os convidados mudam de cabelo (uma loira o tem curto e depois longo) e envelhecem de um corte pra outro (Marília Pêra?). Madureira ri meio falsa e exageradamente das gracinhas do Foster Wallace.

”Zwei angekettete Affen” (“Dois macacos acorrentados”), 1562. Por Pieter Bruegel, o velho. Fotografia por Natan Schäfer

Paralisia do sono e pânico ao sentir alguém do meu lado na cama [tem a ver com o prazer que experimentei matando mosquitos de madrugada, um pouco antes disso acontecer, acho].


5 N. do s.: principal rio que atravessa Berlim (DE).

6 N. do s.: rua localizada em Curitiba – PR (BR).

7 N. do s.: E., pai de J. Ambos amigos do sonhador e sua família, e envolvidos com política.

8 N. do s.: Caetano W. Galindo é tradutor, dentre outros, do romance Graça infinita (1996), do escritor estadunidense David Foster Wallace.

9 N. do s.: membros do extinto programa humorístico Casseta & Planeta, o qual fez enorme sucesso nos anos 1990 e 2000.

10 N. do s.: ”Zwei angekettete Affen” (“Dois macacos acorrentados”) (1562) de Pieter Bruegel, o velho, pintura que se encontra na Gemäldegalerie de Berlim, e foi utilizada como base para a capa do álbum Thought gang (2018), de Angelo Badalamenti e David Lynch.

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