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Simon Hanselmann e a melhor coisa para acompanhar no instagram atualmente

Eu não lembro exatamente a primeira vez que vi algum trabalho do Simon Hanselmann, tenho certeza que já tinha visto alguma coisa no tumblr antes, mas é certo que só dei o devido valor para sua obra nos últimos meses. Foi provavelmente vendo algum stories dele no Instagram que descobri e me apaixonei pelo universo incrível criado por esse australiano doidão expoente dos quadrinhos alternativos mundiais, com obra obras traduzidas para para mais de 30 línguas.

foto por Jody C – (surrupiada de https://www.flickr.com/photos/greentulips/)

Sempre fui a pessoa que não conseguia acompanhar quadrinhos por redes sociais, acabava esquecendo ou me perdendo na narrativa em algum momento o que sempre me fez desistir. Talvez seja só o algoritmo que funcionou dessa vez, mas não perdi nenhuma postagem dele desde que passei a acompanhar diariamente. A forma como ele cria e organiza as histórias, desenhando oito quadros do mesmo tamanho num papel e postando cada um deles individualmente com o carrossel do instagram tem o ritmo perfeito pra mim.

Dá pra notar a obsessão em encontrar a narrativa e a forma perfeita pra contar o que ele quer, seja nos pequenos detalhes do desenho ou na forma como ele amarra uma situação absurda em outra mais ainda, criando ganchos mágicos para a postagem do dia seguinte. Na caixa de comentários fica escancarado o quanto ele acerta, com a galera criando teorias e torcendo pelos seus personagens favoritos. 

Megg and Mogg já apareceu na lista de Best Sellers do New York Times

Personagens esses que muitas vezes estão chapadassos, variando de um comportamento abusivo/doentio pra momentos em que são apaixonantemente humanos. Boa parte da pira nessas histórias é ver essa dualidade e também entender como seus comportamentos são pedaços da personalidade e dos problemas não resolvidos do autor e das pessoas próximas a ele. 

Alguns temas bem comuns em suas obras, são: a autodestruição, ansiedade, a depressão, o vício em drogas e álcool, tretas familiares, sexualidade e discussões de gênero, o mundo capitalista e muitas outras questões da sociedade moderna, tratados sempre com o humor meio bizarro e cínico. A atual série, CRISIS ZONE, que já passa de 70 dias com postagens seguidas está mostrando os personagens, junto do resto do mundo se você está lendo no futuro, sofrendo com o isolamento e os efeitos da pandemia do coronavírus, mais um ponto de conexão fácil para os leitores.

Owl e Werewolf Jones, Crisis Zone, por Simon Hanselmann

Um dos pontos mais fortes da obra pra mim é a impossibilidade de alguém ficar indiferente ao que está sendo narrado. Ver as situações que personagens como Werewolf Jones, um lobisomem sociopata inocentemente irresponsável, Megg, uma bruxa (fofa) drogada e depressiva, ou Owl, uma coruja antropomórfica que tenta ser o sensato da turma, se colocam e não ficar meio “carai, o que tá acontecendo nessa porra” ou até “que forçação de barra pra fazer gente doente parecer cool”,  é impossível.

Megg, Mogg e Owl foram criados baseados na obra infantil britânica, Meg and Mog, dos anos 70. Além do nome parecido, Simon também manteve a bruxa, o gato e a coruja como personagens principais. Mesmo com as claras diferenças entre as obras, ele tinha medo de ser acusado de plágio quando seu material ganhou notoriedade, o que nunca ocorreu. Quando criou a primeira história deles, ele conta, era pra ser apenas “uma coisa rápida e divertida” para tirar o foco de uma outra graphic novel que ele estava fazendo na época. Porém, a bruxa e cia fizeram tanto sucesso que se tornaram a foco principal dele até hoje. Ele agradece muito ao tumblr por parte da sua popularidade atual, já que foi nessa rede que seus quadrinhos começaram a aparecer fora da sua terra natal.

CRISIS ZONE, 2020.

Simon nasceu em Launceston, uma cidadezinha no estado da Tasmânia na Austrália, que ele definiu como “a real shit hole”. Foi criado só pela mãe, uma viciada em heroína que roubava brinquedos e quadrinhos pra ele na infância. A única coisa que encontrei sobre seu pai é que ele era motoqueiro.

Numa entrevista ao The Comics Journal, ele se descreveu como “um nerdão com visual estranho, viciado em livros e quadrinhos de segunda mão que começou a desenhar com 8 anos e não terminou a faculdade”. Ele deixa bem claro que seus quadrinhos são inspirados nele e nas situações e pessoas que conheceu no decorrer dos anos, com toques de ficção. 

O traço de seus desenhos é bastante inspirado em cartoons antigos, num estilo que mistura charme e técnica com um ar de tosqueira milimetricamente construída. Isso faz toda a diferença nesse universo que ele quer mostrar, deixando tudo mais leve e cômico, pra narrativa trazer o lado pesado.

Megg Mogg And Owl publicado na Vice em 2014.

Uma coisa que sempre me deixou confuso é em qual gênero me referir a ele, pois em quase todas as fotos e vídeos que ele aparece, ele está vestido de mulher. Porém, também há registros dele vestido como um cara. Na entrevista ao The Comics Journal, ele explica isso abertamente pela primeira vez, dizendo que desde muito cedo esteve “confuso quanto a minha sexualidade e meu gênero, eu meio que sempre quis ser uma mulher”. 

Simon, foto de divulgação.

Ele continua afirmando que é hétero, e que hoje se considera um cross dresser. Para ele, isso sempre foi uma enorme dificuldade, que gerou muito sofrimento interno e no relacionamento com a mãe e namorada. Quando ele chegou aos 30, conta que já estava cansado e irritado de guardar esse peso consigo e começou a tentar lidar um pouco melhor com essa confusão, indo aos eventos de quadrinhos e entrevistas vestido de mulher, como uma forma de lentamente enfrentar isso e “sair do armário”. Aqui você pode conferir a entrevista em inglês, ele dá bastante detalhes sobre esse período.

Eu conheci pelo Instagram, mas ele tem VÁRIAS histórias impressas publicadas por diversas editoras em todo mundo. Sua principal casa é a Fantagraphics, editora americana criada nos anos 70, especializada em publicar quadrinhos alternativos. Agora em Maio, foi anunciado que um dos seus quadrinhos vai sair no Brasil pela Editora Veneta, a pré venda de Mau Caminho, bad gateway no original já está disponível no site da editora. Fiquei bem empolgado em ter material dele em português. O preço tá bem salgado pra época, mas boto fé que vale o investimento.

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