comentário 0

Finalmente cheguei aqui

Por Leonardo Visioli (postado originalmente em 02/06/2020)

Lembro que tava assistindo o Faustão e a banda Titãs ia tocar uma música inédita que eles gravaram pro “MTV ao Vivo”. A música chamava “Vossa Excelência” e segundo o Wikipédia, fala dos rolê do mensalão da época. 

No refrão dessa música eles gritam FILHA DA PUTA. Lembro que nesse momento da música, ao vivo (acho) no Faustão, os caras deixaram o PUTA de fora. Lembro que vi isso e fiquei pensando “kk ala os cara mó paia”.

Acho que esse relato vai fazer mais sentido ali na frente, mas é importante ter em mente que o Leonardo muito jovem era um babaca ainda maior, o que provavelmente justificará todas as concepções precoces do tema central deste texto.

Eu nunca fui fã de música brasileira, mas não de maneira geral.

Eu falo daquelas músicas que se encaixam nas inúmeras playlists de “brasilidades”, músicas de artistas que tiveram álbum Perfil Som Livre assim, por aí. Até porque essa é meio que a imagem que eu mantive deles durante muito tempo. Isso não quer dizer que esse artista seja ruim, é só a imagem ignorante que eu acabei criando dele ou dela, por sempre assistir as propagandas na globo “perfil não sei quem, um lançamento som livre”.

Na verdade, mais uma vez em minha defesa, não é como se eu automaticamente eliminasse tudo que fosse daqui. Gosto de muita coisa brasileira (tipo isso), mas as “brasilidades” nunca me chamaram atenção. Começando pelo termo, que sempre associei com coisa que eu acho um saco. O porquê de eu associar essas coisas com a palavra “brasilidades” é algo que eu mesmo não consigo explicar, na maioria das vezes implico com alguma coisa porque eu quero mesmo. Sei lá me lembra aquelas baladinha, loungezinho, cidadão de bem, corpo malhado, #somostodoshumanos, fã clube de certos ex-BBB20, enfim, essas coisas. 

Mas isso sempre foi uma merda, deixei de ouvir muita coisa boa por conta disso. E sei lá, nunca “faltou” música pra escutar também então acho que era uma questão de nada, até esse momento, ter me levado a esse tipo de som. Em compensação, isso também fez com que eu quebrasse a cara várias vezes.

O que nos traz de volta ao grupo Titãs. 

A primeira vez que eu escutei o Cabeça Dinossauro, fiquei sem entender nada. Uma banda que eu definia como “Perfil Som Livre” de repente, começou a gritar “cabeça dinossauro corpo de mamute”, falar de polícia, de violência, de família, de bichos escrotos, mandando se foder, e assim, afiadíssimos não por causa do palavrão, mas porque dá pra sentir a RAIVA. O “VÃO SE FODER” de Bichos Escrotos, é gigante perto do “filho da puta” de Vossa Excelência.

Pensei “caralho aí sim em”, e esse poderia ter sido o momento em que Leonardo finalmente desperta interesse na música brasileira. Mas não foi.

Também não foi a toa. Nesse meio tempo eu conheci mais coisas nacionais, mas foi só esse ano que eu cheguei nas “brasilidades”. 

Ultimamente eu tenho escutado bastante coisa dos anos 70, tipo King Crimson e Frank Zappa. Numa dessas escutando algum álbum no youtube, o site me botou o Clube da Esquina na sequência, que começa com “Tudo Que Você Podia Ser”. 

O MIlton Nascimento cantou “com sol e chuva”, olhei pra abinha do chrome e tava escrito “Clube da Esquina Álbum Completo”. Ouvi ele inteiro e amei demais, muito mesmo. Nunca tinha ouvido o disco inteiro, mas lembrei que um amigo já tinha me mostrado “Dos Cruces” uma vez. Lembrei também que havia dito que escutaria mais esse tipo de coisa e pensei “agora vai”.

Foi quase.

Depois disso acabei escutando Tim Maia, Jorge Ben, Lô Borges até que fui parar no Paêbirú do Zé Ramalho e tive um momento parecido com o da primeira vez que escutei o Cabeça Dinossauro.

O Zé Ramalho era um negócio que eu sempre vi como esse role artista “Perfil Som Livre”. Assim “Zépultura” foi legal mas meio que foda-se, sei lá. 

Aí começa o Paêbirú. O álbum tem muitos elementos de repetição, o som vai crescendo, os caras vão metendo som pra preencher, de repente você ouve coisas como “peixe de pedra e espinhos num homem de ferro” com um monte de flauta e a coisa vai se transformando.

O destaque é pra música “Nas paredes da pedra encantada, os segredos talhados por Sumé – Fogo”. A crescida que ela dá é uma das coisa mais linda que tem, e foi nela que eu fiquei “caralho aí sim em” (geralmente o que eu digo quando gosto de algo). 

Fiquei puto e maravilhado, mais uma vez havia quebrado a cara. Os cara são muito foda.

Dá pra dizer que com o Paêbirú FOI. O empurrão que faltava, o que me fez estar, no momento em que escrevo esse texto, escutando Sérgio Sampaio. 

Afinal as coisas tem que acontecer.

Outra coisa que eu queria dizer é que isso tudo aconteceu graças a indicações constantes de amigos ao longo dos anos.

Demorou, mas foi moçada. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s